<font color=0093dd>Vida de Joaquim Gomes<br>é exemplo para as novas gerações</font>

CENTENÁRIO No dia em que passam cem anos sobre o nascimento de Joaquim Gomes, o Avante! evoca aspectos marcantes do percurso de vida e de luta daquele que foi um dos mais destacados dirigentes e militantes do PCP, iniciado nos primeiros anos da década de 30 do século XX e que só a morte, em 2010, haveria de interromper. Permanece o exemplo de dedicação à classe operária, aos trabalhadores e ao povo, à democracia, ao socialismo e ao comunismo.

Joaquim Gomes foi um dedicado comunista durante quase 80 anos

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Nascido na Marinha Grande a 9 de Março de 1917, numa família operária, Joaquim Gomes, como muitos outros meninos da sua geração e da sua classe, teve uma infância dura e breve: com apenas seis anos começou a trabalhar na indústria vidreira, como aprendiz, sujeitando-se à mais desenfreada exploração e a toda a espécie de violências e arbitrariedades. Não foi à escola, mas aprendeu a ler em casa e no sindicato, tornando-se desde muito novo um leitor compulsivo e interessado.

A dureza da vida na fábrica foi descrita pelo próprio numa entrevista concedida ao Avante! há precisamente dez anos, por ocasião do seu 90.º aniversário: se no turno das quatro da tarde à meia-noite se passava já parte da noite a trabalhar, «pior ainda era trabalhar no turno da meia-noite às oito da manhã. As crianças caíam com sono e os adultos não estavam com meias medidas: o mais suave era atirar um balde de água fria para cima. Mas muitas vezes queimavam-nos com o vidro para que eles acordassem».

Este ambiente de exploração, agravado no início da década de 30 com os efeitos da Grande Depressão, aliado à poderosa organização sindical e partidária que já então existia na Marinha Grande, despertam em Joaquim Gomes a revolta e a consciência política e de classe: entre 1931 e 1932, com 14 anos, tornou-se membro das Juventudes Comunistas, particularmente activa e prestigiada junto dos aprendizes das fábricas de vidro, cujas lutas frequentemente paravam a produção.

Foi pela sua participação activa numa greve de aprendizes que, juntamente com outros sete jovens, conheceu a sua primeira prisão, em Novembro de 1933. Foi aí que tomou conhecimento do levantamento operário de 18 de Janeiro de 1934, contra a fascização dos sindicatos, que assumiu na vila vidreira a sua máxima expressão. A chegada dos operários revoltosos à prisão, totalmente desfigurados pelos espancamentos, provocaram em Joaquim Gomes uma forte impressão. Se o objectivo dos esbirros era semear o medo entre os jovens operários, falharam por completo; o que se generalizou foi a determinação em prosseguir a luta contra o fascismo.

Do Partido à clandestinidade

Imediatamente após a sua libertação, em Março de 1934, Joaquim Gomes integrou o grupo de jovens comunistas a quem coube refazer a organização do Partido na Marinha Grande, e sobretudo nas fábricas de vidro, desmantelada após o levantamento de 18 de Janeiro e a repressão que se lhe seguiu. Por acção do Comité Local, no final do ano o fundamental das células encontrava-se já a funcionar em pleno, ao mesmo tempo que se levava por diante um impetuoso movimento de solidariedade material com as famílias dos presos, privadas dos seus meios de subsistência.

Por circunstâncias da vida, Joaquim Gomes mudou-se para Lisboa em 1937, onde trabalhou como operário, primeiro numa fábrica de lâmpadas e mais tarde numa outra, de garrafas-termo, onde se manteve por 12 anos. Pelo meio, casou-se com a sua companheira de sempre, Maria da Piedade Gomes.

Depois de uma breve passagem por organizações locais do Partido em Lisboa, nas quais entre outras funções foi distribuidor da imprensa partidária, Joaquim Gomes e Maria da Piedade foram chamados a tarefas centrais, passando a sua casa a funcionar como «ponto de apoio» ao Secretariado. Pela natureza das tarefas, ligadas à defesa dos dirigentes mais responsáveis do Partido, o casal teve que manter uma vida aparentemente «normal», longe de qualquer actividade política aberta.

Em 1952, Joaquim Gomes passou a integrar o Comité Local de Lisboa e, juntamente com a companheira, mergulhou na clandestinidade.

Prisões, fugas e resistência

Na sua vida clandestina, Joaquim Gomes, como muitos outros militantes comunistas antes e depois dele, travou decisivos combates com a PIDE, vencendo-os todos. Na sequência da sua prisão em 1954, teve a sua «grande experiência de combate com a repressão», recordou na já referida entrevista. Sujeito à tortura da estátua, exigiu uma cadeira para se sentar; face à recusa dos esbirros sentou-se no chão, sendo em seguida violentamente espancado. A cadeira acabou por vir: «Saí com este sentimento: fui eu que ganhei.» A fuga da prisão da PIDE do Porto, juntamente com Pedro Soares, foi uma segunda e importante vitória.

Em 1958, já membro do Comité Central, foi novamente preso e enviado para a Fortaleza da Peniche, da qual se evadiu em Janeiro de 1960, juntamente com Álvaro Cunhal e mais oito camaradas. O seu papel na preparação da evasão foi essencial. Na totalidade, Joaquim Gomes passou pouco mais de dois anos na prisão, graças às duas fugas que protagonizou. Já a sua companheira esteve presa quase seis.

Entre as tarefas e responsabilidades que assumiu na clandestinidade, Joaquim Gomes foi responsável pelas tipografias clandestinas em vários períodos: de 1955 até à sua prisão, em 1958; entre1960 e 1961 e novamente de 1971 a 1974; entre 1963 e 1965 foi redactor principal do Avante!.

Chamado ao Comité Central em 1955, foi eleito para esse órgão no V Congresso, realizado em 1957. Após a fuga de Peniche e a correcção do desvio de direita que nos últimos anos da década de 50 marcava a orientação do Partido, Joaquim Gomes passou ao Secretariado, onde permaneceu até 1963. Daqui até ao 25 de Abril foi membro da Comissão Executiva, com a responsabilidade de ligação ao Secretariado, no exterior, passando diversas vezes as fronteiras, iludindo sempre a vigilância policial.

A 25 de Abril de 1974, Joaquim encontrava-se reunido com outros dirigentes do PCP na casa clandestina de José Vitoriano, no Porto. Dois dias depois rumou a Lisboa, iniciando-se um novo capítulo na sua vida e na história colectiva do povo português.

Revolução, contra-revolução
e democracia

A Revolução de Abril veio alterar por completo a vida e os métodos de trabalho do Partido e dos seus mais experimentados e destacados dirigentes, como Joaquim Gomes: a dedicação sem limites à causa do seu Partido e do seu povo, essa continuou, em novas mas não menos exigentes condições. No VII Congresso (Extraordinário) do Partido, realizado em Outubro de 1974, foi publicamente apresentado como membro do Comité Central, da Comissão Política e do Secretariado, neste último organismo juntamente com Álvaro Cunhal, Sérgio Vilarigues e Octávio Pato.

Na construção, afirmação e reforço do Partido nas novas condições da legalidade, na luta pelo avanço da revolução e na luta contra a reacção, nos combates políticos e de massas em defesa das conquistas de Abril ou na intervenção institucional, Joaquim Gomes ocupou sempre um lugar destacado: foi membro do Comité Central até 1996, da Comissão Política e do Secretariado até 1988; entre 1988 e 1992 integrou a Comissão Central de Controlo e Quadros e, posteriormente, a Comissão Central de Controlo. Fez parte da Comissão Administrativa e Financeira e da Comissão do Património até ao fim da sua vida. Foi eleito para a Assembleia Constituinte, em 1975, e foi deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, sempre eleito pelo distrito de Leiria.


Joaquim Gomes por ele próprio

O Avante! clandestino

«Quem pode imaginar quantas dificuldades é necessário vencer para montar, alimentar e manter uma tipografia nas condições de clandestinidade a que somos forçados? Quem pode imaginar quantos olhos e nervos têm sido gastos, em dias e noites seguidas, a juntar letras que nem sempre a escola ensinou a conhecer? Quem pode imaginar que, junto às caixas do “tipo”, têm crescido crianças e jovens que quase nunca brincaram com outras crianças e jovens, que da vida pouco mais conhecem que juntar letras e levar aos encontros, a horas certas o Avante! ou O Militante? E tudo isto não está nas páginas do Avante! ou nas linhas impressas, mas nas linhas que se não lêem e dificilmente se podem imaginar.»

Intervenção no VI Congresso
do PCP, 1965

A luta contra a reacção

«A montagem de uma intentona engendrada à volta de uma suposta maioria silenciosa, que afinal não passou de uma minoria sediciosa, terminou em estrondosa derrota. Contudo, as derrotas sucessivas da reacção não podem, não devem, conduzir a optimismos que enfraqueçam a vigilância. (…) Não se deseja que no País se crie qualquer espírito de retaliação, mas é preciso defender as conquistas democráticas do 25 de Abril, pois o que está em causa é o futuro da democracia e a liberdade do povo português. É a independência da pátria que os fascistas tinham empenhado ao imperialismo.»

Intervenção no VII Congresso (Extraordinário)
do PCP, Outubro de 1974

O 18 de Janeiro

«Para os operário vidreiros, aqueles que conhecem de algum modo a história do 18 de Janeiro, sabem que precisamente esta jornada se não pode desligar da unidade sindical. Foi depois da criação de um sindicato único da classe vidreira que os trabalhadores deram um impulso decisivo às suas lutas até à jornada gloriosa do 18 de Janeiro. (…) Só as raízes muito profundas do nosso Partido no seio da classe operária permitiu colmatar, em prazo relativamente curto, as profundas brechas abertas pela feroz repressão que caiu sobre o proletariado da Marinha Grande depois do 18 de Janeiro.»

Discurso no comício evocativo
do 18 de Janeiro de 1934 Marinha Grande
Janeiro de 1975

O futuro

«Temos possibilidades, e grandes, de cumprir o nosso papel. (…) É preciso que os militantes do Partido ganhem a consciência de si próprios. No caminho que temos que percorrer, ninguém nos substitui. Os comunistas não serão substituídos por ninguém.»

Entrevista ao Avante!, Março de 2007

 



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